Que pena.
Você não gosta de mim.
Que pena.
Podíamos ter um ao outro para dividir o jornal e as manhãs.
Podíamos ficar observando a cortina voejar janela adentro
e os nossos papéis espalhados
sobre os lençóis
espelhos
aquários.
Podíamos ficar despenteados aos domingos.
Podíamos nunca mais nos pentear
nem ficar sozinhos
ou vestir roupas
podíamos ter uma luneta
uma árvore torta na calçada
uma escadaria em forma de caracol
um sótão, uma lareira
ou nada disso.
Podíamos viver a história secreta que sempre quisemos compartilhar.
e quem sabe até ganhar na loteria
sonegar impostos
acreditar em horóscopos
ou em futuro
andar no arame
colecionar moedas.
Viagens. Fotografias. Souvenirs.
Filhos lindos, estabanados, falastrões e geniais.
Sobrinhos. Netos. Natais. Cometas Halley.
Podíamos ter tudo, e tanto.
Mas você não gosta de mim.
Tudo bem.
E é uma pena.
- Pri.
quarta-feira, 5 de março de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Batidas.
Eu estava sentado perto da calçada. Ventava forte por causa dos prédios e fingia não te ver, pois a idéia de conversar com você me apavorava. Mas os meus truques e disfarces nunca funcionavam. Então você veio até onde eu estava e disse oi. Os seus olhos estavam de uma cor tão púrpura e o cheiro do seu cabelo era tão doce... O meu corpo alcançava o céu.
Duas noites depois, saímos para tomar um uísque e meu coração já estava completamente entorpecido. Enquanto bebíamos, você acendeu um cigarro e meus olhos ficaram hipnotizados pelo movimento dos seus dedos e da sua boca. Depois de algumas doses, disse que te levaria pra casa antes que ficássemos bêbados demais. Saímos do pub escuro de música estranha. A noite estava leve. Entramos no carro e coloquei Just like starting over do John Lennon. Você piscou devagar e deu um sorriso macio de satisfação. Antes mesmo de dar a partida, enquanto eu colocava a chave no contato, você me beijou. Foi um beijo tão suave que meus olhos se enchem de lágrimas quando lembro. Demos risada depois do beijo, talvez porque naquele momento, nós dois sentimos que era o primeiro de muitos. Nossas almas estavam conectadas. Só hoje percebo que bebemos demais aquela noite. Sim. Éramos almas conectadas, John Lennon e uísques. Até aquela Saveiro velha bater na parte direita do carro e darmos de encontro com um muro por cima da calçada. Quando acordei – acredito que poucos segundos depois da batida – o seu rosto já estava completamente ensaguentado e você, desacordada. O meu desespero era tanto que me faltava ar pra conseguir pronunciar uma palavra sequer. Quando olhei pro lado de fora do carro, vi dois homens correndo na nossa direção. Minutos depois, eu estava tonto, sentado na calçada, sentindo escorrer sangue da testa até a nuca. Não lembro quanto tempo demorou pra chegar a ambulância e carros da polícia. Mas lembro que via luzes e ouvia o barulho assustador das sirenes se aproximando. Desde então, eu não tenho vida. Eu não sei mais viver. Não sei respirar, não sei sorrir, não sei viver sem medo. Hoje fui te visitar no hospital e mal sei como consegui entrar naquele quarto branco com cheiro de morte lenta. Eu tremia tanto... Acho que não consegui olhar nos seus olhos por mais de três segundos consecutivos. Sua imagem pálida, seu corpo imobilizado. Você não falou nada. E eu entendo, porque também fiquei o tempo todo em silêncio. As minhas mãos estavam geladas. Eu me sentia culpado. Dei um beijo na sua testa e saí do quarto mudo, com os olhos cheios de lágrimas. Em um pânico silencioso.
- Débora Lopes.
Duas noites depois, saímos para tomar um uísque e meu coração já estava completamente entorpecido. Enquanto bebíamos, você acendeu um cigarro e meus olhos ficaram hipnotizados pelo movimento dos seus dedos e da sua boca. Depois de algumas doses, disse que te levaria pra casa antes que ficássemos bêbados demais. Saímos do pub escuro de música estranha. A noite estava leve. Entramos no carro e coloquei Just like starting over do John Lennon. Você piscou devagar e deu um sorriso macio de satisfação. Antes mesmo de dar a partida, enquanto eu colocava a chave no contato, você me beijou. Foi um beijo tão suave que meus olhos se enchem de lágrimas quando lembro. Demos risada depois do beijo, talvez porque naquele momento, nós dois sentimos que era o primeiro de muitos. Nossas almas estavam conectadas. Só hoje percebo que bebemos demais aquela noite. Sim. Éramos almas conectadas, John Lennon e uísques. Até aquela Saveiro velha bater na parte direita do carro e darmos de encontro com um muro por cima da calçada. Quando acordei – acredito que poucos segundos depois da batida – o seu rosto já estava completamente ensaguentado e você, desacordada. O meu desespero era tanto que me faltava ar pra conseguir pronunciar uma palavra sequer. Quando olhei pro lado de fora do carro, vi dois homens correndo na nossa direção. Minutos depois, eu estava tonto, sentado na calçada, sentindo escorrer sangue da testa até a nuca. Não lembro quanto tempo demorou pra chegar a ambulância e carros da polícia. Mas lembro que via luzes e ouvia o barulho assustador das sirenes se aproximando. Desde então, eu não tenho vida. Eu não sei mais viver. Não sei respirar, não sei sorrir, não sei viver sem medo. Hoje fui te visitar no hospital e mal sei como consegui entrar naquele quarto branco com cheiro de morte lenta. Eu tremia tanto... Acho que não consegui olhar nos seus olhos por mais de três segundos consecutivos. Sua imagem pálida, seu corpo imobilizado. Você não falou nada. E eu entendo, porque também fiquei o tempo todo em silêncio. As minhas mãos estavam geladas. Eu me sentia culpado. Dei um beijo na sua testa e saí do quarto mudo, com os olhos cheios de lágrimas. Em um pânico silencioso.
- Débora Lopes.
Por que eu gosto de você.
Eu gosto de você porque somos cúmplices. Gostamos de cachecóis, palavrões e coincidências; não gostamos de elevadores, soluços e silêncios. Gosto da insônia que nos deu uma coleção de madrugadas para relembrar. Gosto dos finais imprevisíveis das suas histórias e de figurar nelas. Gosto do seu olhar de ventania, do seu jeito azul de rir, feito uma manhã de outono. Gosto do seu coração que parece expandir o tempo todo. Do barulho que as moedas fazem no seu bolso quando você anda. Da sua insistência em não correr nem mesmo quando aperta a chuva. Da mania de distribuir esmolas o tempo todo a quem pedir. Da maneira com que você acerta os óculos no meu rosto. Do nosso timing - não falamos na vez do outro e ouvimos muito atentamente enquanto um dos dois fala. Gosto da nossa respeitosa cerimônia. Gosto de te ver guardar meus segredos e nunca mais tocar no assunto, só para deixar claro o quão bem estão guardados. Gosto do nosso medo de morto e do escuro - Importante: todas as vezes que preciso apagar as luzes me lembro das nossas mãos dadas para que o medo passe. Gosto das nossas diferenças. Gosto do que se move em você, das coisas que você cultiva em redor, das cores que você escolhe. De quando você pergunta por onde anda aquela camiseta que eu não uso faz tempo. Gosto de te ver fingir que gostou de algo que eu quis muito mostrar. Gosto do seu tom, da sua mãe, da sua educação, de te ver modificar as coisas, das suas omissões e seu interior tão finamente lapidado. Gosto de sentir saudades. Sua ausência não é amarga, uma parte de você sempre fica do meu lado, vigilante. Gosto de você porque somos partidários. Porque somos reticentes. Porque somos o que somos. E porque ainda não existimos.
- Priscila.
- Priscila.
Para um lírio dormindo.
Uma homenagem suja a um amor meu.
- Eu quero te falar várias coisas, Felipe. Acorda. Vai, por favor. É, tem que ser agora sim. Se eu não falar tudo agora, tudo hoje, você nunca vai saber. Porque sim, cara, deu vontade de falar tudo agora. Não, eu não tô a fim de reclamar, eu quero só falar coisas. E eu sei que amanhã de manhã será tudo igual. É, eu sei. Aham, eu quero falar mesmo assim. Porra, custa ouvir? Pára de me interromper e ouve, porque se eu não falar tudo agora não vai dar mais tempo e você vai viver sem ter ouvido isso. Não, você não vai morrer. E eu detesto as suas piadinhas. É. Eu posso até rir vezenquando e dizer que sim, que não, interagir com a sua piada medíocre. Não, eu não quero ofender ninguém, Felipe, mas as suas piadas são sim medíocres. Você sabe que são, não faz essa cara. E eu detesto mais ainda quando você faz piadas na frente dos meus pais. É tão inconveniente, Felipe. E você sempre faz. Você fala que não vai mais fazer, você promete, jura, mas você sempre faz. Por isso que o meu pai não gosta muito de você. É, não gosta. Ah, não faz essa cara de espanto, você sempre soube. Minha mãe? Sei lá, minha mãe não fala muito, acho que ela gosta sim. Também a minha mãe gosta de qualquer um, cara. Não, você não é qualquer um. Se você fosse qualquer um eu não estaria só de calcinha dividindo a cama contigo em um apartamento que fede de dia. É, isso aqui fede de dia, quando o caminhão de lixo passa. Você sabe que fede, cara, não faz essa cara de nojo pro que eu tô falando. Merda, me escuta. Então. Eu odeio quando você faz piadinhas na frente dos meus pais. Mas eu odeio mesmo. Porque mostra pra eles que eu sou uma merda. É, cara. Dá pra parar? Larga meu braço. Larga o meu braço, porra. Eu estudei nos Estados Unidos, sabe. É, eu fiz faculdade lá e o escambau. Volto, com trinta anos e fico dividindo cama, apartamento, vida com você. Não, o problema não é você não ter feito faculdade. O problema é que você enche o saco. Você fala demais e você se acha inteligente demais, só que você não sabe nada sobre nada. Tá, tirando os programas de computador – você não sabe nada sobre nada, cara. Em suma, você não fez faculdade. E o meu pai é pêagádê em História da Arte, cara. Tu sabe o que é isso? Não, ele não é que nem os outros intelectuais escrotos. O meu pai não é escroto, cara. Ele sabe pra caralho de Arte. É, arte com letra maiúscula mesmo. Webdesign não é a mesma coisa, Felipe, deixa de ser chato. Arte. Picasso. Rodin. Portinari. Eu sei que você já ouviu falar deles, mas ser pêagádê em Arte é bem diferente. E eu não sei porquê eu tô falando do meu pai. Não, eu não te acordei pra dar lição de moral, eu te acordei porque você precisa escutar tudo o que eu tenho pra dizer. Eu odeio dividir esse apartamento contigo. É, eu acho escroto o jeito como você não liga pra nada. A única coisa limpa aqui é o seu computador. Não, não tô falando isso por causa da minha mãe. Não, minha mãe não falou nada hoje. Eu pedi já pra não interromper, lembra? Tô falando porque acho um saco ter ficar catando as suas roupas por aí e acho uma merda ter que cuidar de você às vezes. Tenho raiva dos seus copos sujos, dos cinzeiros cheios sempre. E da lata de lixo que você não troca. Você é a pessoa mais mimada que eu já conheci. E olha que eu tinha uma prima, a Paola, que era do tipo mais mimada possível. E você ganhou da Paola, cara. Quando eu tinha cinco anos e ela deu um escândalo porque eu dei um banho na barbie dela eu jurei que ninguém superaria a Paola. E eu tô dividindo cama, mesa, banho e apartamento com o maior professor que a Paola poderia ter. Eu já teria me beliscado, se eu tivesse cinco anos agora. Não, não é pra ofender. E eu também não quero brigar. Eu só tô falando tudo agora porque sim. Porque eu tô com vontade, porque eu acho que vai ser importante. Onde você vai? Não, Felipe, deita aqui. Não, eu não tô com fome. Será que você pode tentar me ouvir assim, sem preocupação. É, sem preocupação. Finge ao menos que você se importa. Olha pra mim. Então, eu quero dizer também que eu sei que a Bianca já te beijou. É, eu vi aquele dia. Eu não sei porquê eu não contei. Eu fiquei em estado de choque, eu acho. Eu esperava qualquer coisa dela, menos isso. É, eu sei que ela é uma piranha. Aham, eu vi tudo. É, eu fiquei atrás da porta só ouvindo. E achei lindo o que você falou pra ela. É. Sério. Não, não achei idiota, não, não acho você gay por causa disso. Eu sei também que ela é gostosa. É. Bem mais bonita do que eu até. É, é sim, não adianta você falar nada. Mas eu gostei de verdade de ouvir aquilo tudo. É, porque eu senti que você gostava de mim de verdade. Uhum. De verdade. Eu sempre gostei de você, desde quando o Pedro me apresentou a você. Você sabia que ele só me apresentou a você porque eu pedi. É. Eu vi você conversando com o Paulo sobre os novos lançamentos da EMI e eu achei lindo o modo como você falou de música. Eu achei lindo. É. Não. Não, porra, pára com essa paranóia de viadagem. Nem tudo o que você faz é coisa de viado. É, tá, tem uma outra coisa que é de viado sim. Não sei. Tá, é que eu sei que você vai ficar puto. É, eu acho que o jeito como você arruma o seu cabelo é meio de bicha. É. Não, eu não quero que mude, eu acho que fica bonito. Mas esquece isso. Eu quero falar outras coisas. Eu quero que você saiba o quanto eu gostei de você. É, eu fiquei quase sem dormir quando eu cheguei em casa depois daquela festa. Eu fiquei a noite inteira repassando os diálogos e eu escrevi no meu diário. É, porra, eu tinha um diário, e daí? Eu disse que você tinha sido o único cara até aquele momento que eu queria que me ligasse de verdade. É. Aham. Não, eu não dei o meu telefone certo pra muitos caras, mas já dei pra uns dez ou nove aí. Não. Acho que com dois só eu saí pela segunda vez. Não, isso não importa. Deixa eu falar. Então eu fiquei a noite inteira pensando no selinho que você tinha me dado. E tava chovendo e o táxi já tava querendo ir embora e eu estava encharcada. É, você também, mas eu tava com uma blusa branca, lembra? Não, não era rosa, era branca. E aí eu achei lindo você pegar o meu telefone e depois me dar um selinho. Porque eu nunca esperei isso de um cara de vinte e seis anos. Não, eu achava que você ia querer me comer logo, eu achava que a gente ia pra algum motel, sei lá. Nunca pensei que você ia se contentar em me dar um selinho e me colocar num táxi. Não, eu não queria ir pra um motel. Não, eu também não tô falando que só viado faz isso. Porra, Felipe, tu tá enchendo com esse papo de gay pra lá gay pra cá. Esquece. Eu só queria dizer que várias vezes eu já quis terminar contigo e eu não terminei por causa do selinho. É, só por causa do selinho mesmo. Achei poético demais aquele beijo na chuva com um táxi do lado. Em todo filme americano tem isso. Acho que por isso que eu gostei tanto. Não, eu não gosto agora de filme americano, eu tô falando que eu gostei porque quando eu era menor o meu sonho era que coisas de filme acontecessem comigo. É. Uhum, você realizou um sonho meu sem saber. Eu imaginava que você não lembrava do beijo. Não, não é insensível isso, mas é. Não, não é insensível, é só que é óbvio que você não ia lembrar mesmo. Eu nem sei como eu lembro. Faz mais de um ano. E depois eu fiquei esperando você ligar e quando você ligou eu quase chorei. É, sei lá porquê. Chorei até, no banheiro, me arrumando. Estraguei a maquiagem e decidi ir sem lápis no olho. É engraçado lembrar disso tudo. Juro que é. É como se eu tivesse lendo o meu diário. Não, tá lá na minha casa. É, na casa da minha mãe. Não, eu não sei que horas são. Eu sei que eu te acordei, Felipe, porque eu queria te contar como eu gosto de você. E, ao mesmo tempo, como eu detesto um monte de coisas que você faz. Eu detesto a sua toalha molhada no chão da cozinha, eu detesto o cheiro da sua boca de manhã. É, todo mundo tem, mas eu não gosto mesmo. Eu não gosto quando você conta suas piadas e nem da sua irresponsabilidade pseudo-rebelde. Porque é bonitinho usar calça rasgada aos quinze, já aos vinte e tantos soa ridículo. Mas eu amo as suas calças rasgadas e os seus tênis de cinco anos e suas blusas do Che. Eu amo as suas blusas do Che. Adoro o Martini que você faz pra mim e gosto dos livros que você me deu. Gosto deles mais do que falo que gosto. Eu acordei você pra te contar que eu te amo muito e por mais que eu só tenha falado isso depois de transas ou de conquistas, eu te amo pra caramba, cara. Eu acho que eu não poderia mais dormir se não fosse nesse apartamento desorganizado e nessa cama pequena demais pras tuas pernas. Eu acho que eu sempre vou precisar de você e morro de medo de você morrer. Porque eu sei que as pessoas morrem, mas se você morrer, Felipe, eu tô fudida. Eu acho que eu morro junto. Eu sei que isso é clichê, eu sei que é ridículo eu te acordar pra falar isso, mas eu precisava ter certeza de que eu te disse tudo o que eu sinto. Eu precisava saber que você sabe que eu sei que você sabe que eu te amo pra caralho. Porra, Felipe, que merda. Acorda, cara.
- Fel.
- Eu quero te falar várias coisas, Felipe. Acorda. Vai, por favor. É, tem que ser agora sim. Se eu não falar tudo agora, tudo hoje, você nunca vai saber. Porque sim, cara, deu vontade de falar tudo agora. Não, eu não tô a fim de reclamar, eu quero só falar coisas. E eu sei que amanhã de manhã será tudo igual. É, eu sei. Aham, eu quero falar mesmo assim. Porra, custa ouvir? Pára de me interromper e ouve, porque se eu não falar tudo agora não vai dar mais tempo e você vai viver sem ter ouvido isso. Não, você não vai morrer. E eu detesto as suas piadinhas. É. Eu posso até rir vezenquando e dizer que sim, que não, interagir com a sua piada medíocre. Não, eu não quero ofender ninguém, Felipe, mas as suas piadas são sim medíocres. Você sabe que são, não faz essa cara. E eu detesto mais ainda quando você faz piadas na frente dos meus pais. É tão inconveniente, Felipe. E você sempre faz. Você fala que não vai mais fazer, você promete, jura, mas você sempre faz. Por isso que o meu pai não gosta muito de você. É, não gosta. Ah, não faz essa cara de espanto, você sempre soube. Minha mãe? Sei lá, minha mãe não fala muito, acho que ela gosta sim. Também a minha mãe gosta de qualquer um, cara. Não, você não é qualquer um. Se você fosse qualquer um eu não estaria só de calcinha dividindo a cama contigo em um apartamento que fede de dia. É, isso aqui fede de dia, quando o caminhão de lixo passa. Você sabe que fede, cara, não faz essa cara de nojo pro que eu tô falando. Merda, me escuta. Então. Eu odeio quando você faz piadinhas na frente dos meus pais. Mas eu odeio mesmo. Porque mostra pra eles que eu sou uma merda. É, cara. Dá pra parar? Larga meu braço. Larga o meu braço, porra. Eu estudei nos Estados Unidos, sabe. É, eu fiz faculdade lá e o escambau. Volto, com trinta anos e fico dividindo cama, apartamento, vida com você. Não, o problema não é você não ter feito faculdade. O problema é que você enche o saco. Você fala demais e você se acha inteligente demais, só que você não sabe nada sobre nada. Tá, tirando os programas de computador – você não sabe nada sobre nada, cara. Em suma, você não fez faculdade. E o meu pai é pêagádê em História da Arte, cara. Tu sabe o que é isso? Não, ele não é que nem os outros intelectuais escrotos. O meu pai não é escroto, cara. Ele sabe pra caralho de Arte. É, arte com letra maiúscula mesmo. Webdesign não é a mesma coisa, Felipe, deixa de ser chato. Arte. Picasso. Rodin. Portinari. Eu sei que você já ouviu falar deles, mas ser pêagádê em Arte é bem diferente. E eu não sei porquê eu tô falando do meu pai. Não, eu não te acordei pra dar lição de moral, eu te acordei porque você precisa escutar tudo o que eu tenho pra dizer. Eu odeio dividir esse apartamento contigo. É, eu acho escroto o jeito como você não liga pra nada. A única coisa limpa aqui é o seu computador. Não, não tô falando isso por causa da minha mãe. Não, minha mãe não falou nada hoje. Eu pedi já pra não interromper, lembra? Tô falando porque acho um saco ter ficar catando as suas roupas por aí e acho uma merda ter que cuidar de você às vezes. Tenho raiva dos seus copos sujos, dos cinzeiros cheios sempre. E da lata de lixo que você não troca. Você é a pessoa mais mimada que eu já conheci. E olha que eu tinha uma prima, a Paola, que era do tipo mais mimada possível. E você ganhou da Paola, cara. Quando eu tinha cinco anos e ela deu um escândalo porque eu dei um banho na barbie dela eu jurei que ninguém superaria a Paola. E eu tô dividindo cama, mesa, banho e apartamento com o maior professor que a Paola poderia ter. Eu já teria me beliscado, se eu tivesse cinco anos agora. Não, não é pra ofender. E eu também não quero brigar. Eu só tô falando tudo agora porque sim. Porque eu tô com vontade, porque eu acho que vai ser importante. Onde você vai? Não, Felipe, deita aqui. Não, eu não tô com fome. Será que você pode tentar me ouvir assim, sem preocupação. É, sem preocupação. Finge ao menos que você se importa. Olha pra mim. Então, eu quero dizer também que eu sei que a Bianca já te beijou. É, eu vi aquele dia. Eu não sei porquê eu não contei. Eu fiquei em estado de choque, eu acho. Eu esperava qualquer coisa dela, menos isso. É, eu sei que ela é uma piranha. Aham, eu vi tudo. É, eu fiquei atrás da porta só ouvindo. E achei lindo o que você falou pra ela. É. Sério. Não, não achei idiota, não, não acho você gay por causa disso. Eu sei também que ela é gostosa. É. Bem mais bonita do que eu até. É, é sim, não adianta você falar nada. Mas eu gostei de verdade de ouvir aquilo tudo. É, porque eu senti que você gostava de mim de verdade. Uhum. De verdade. Eu sempre gostei de você, desde quando o Pedro me apresentou a você. Você sabia que ele só me apresentou a você porque eu pedi. É. Eu vi você conversando com o Paulo sobre os novos lançamentos da EMI e eu achei lindo o modo como você falou de música. Eu achei lindo. É. Não. Não, porra, pára com essa paranóia de viadagem. Nem tudo o que você faz é coisa de viado. É, tá, tem uma outra coisa que é de viado sim. Não sei. Tá, é que eu sei que você vai ficar puto. É, eu acho que o jeito como você arruma o seu cabelo é meio de bicha. É. Não, eu não quero que mude, eu acho que fica bonito. Mas esquece isso. Eu quero falar outras coisas. Eu quero que você saiba o quanto eu gostei de você. É, eu fiquei quase sem dormir quando eu cheguei em casa depois daquela festa. Eu fiquei a noite inteira repassando os diálogos e eu escrevi no meu diário. É, porra, eu tinha um diário, e daí? Eu disse que você tinha sido o único cara até aquele momento que eu queria que me ligasse de verdade. É. Aham. Não, eu não dei o meu telefone certo pra muitos caras, mas já dei pra uns dez ou nove aí. Não. Acho que com dois só eu saí pela segunda vez. Não, isso não importa. Deixa eu falar. Então eu fiquei a noite inteira pensando no selinho que você tinha me dado. E tava chovendo e o táxi já tava querendo ir embora e eu estava encharcada. É, você também, mas eu tava com uma blusa branca, lembra? Não, não era rosa, era branca. E aí eu achei lindo você pegar o meu telefone e depois me dar um selinho. Porque eu nunca esperei isso de um cara de vinte e seis anos. Não, eu achava que você ia querer me comer logo, eu achava que a gente ia pra algum motel, sei lá. Nunca pensei que você ia se contentar em me dar um selinho e me colocar num táxi. Não, eu não queria ir pra um motel. Não, eu também não tô falando que só viado faz isso. Porra, Felipe, tu tá enchendo com esse papo de gay pra lá gay pra cá. Esquece. Eu só queria dizer que várias vezes eu já quis terminar contigo e eu não terminei por causa do selinho. É, só por causa do selinho mesmo. Achei poético demais aquele beijo na chuva com um táxi do lado. Em todo filme americano tem isso. Acho que por isso que eu gostei tanto. Não, eu não gosto agora de filme americano, eu tô falando que eu gostei porque quando eu era menor o meu sonho era que coisas de filme acontecessem comigo. É. Uhum, você realizou um sonho meu sem saber. Eu imaginava que você não lembrava do beijo. Não, não é insensível isso, mas é. Não, não é insensível, é só que é óbvio que você não ia lembrar mesmo. Eu nem sei como eu lembro. Faz mais de um ano. E depois eu fiquei esperando você ligar e quando você ligou eu quase chorei. É, sei lá porquê. Chorei até, no banheiro, me arrumando. Estraguei a maquiagem e decidi ir sem lápis no olho. É engraçado lembrar disso tudo. Juro que é. É como se eu tivesse lendo o meu diário. Não, tá lá na minha casa. É, na casa da minha mãe. Não, eu não sei que horas são. Eu sei que eu te acordei, Felipe, porque eu queria te contar como eu gosto de você. E, ao mesmo tempo, como eu detesto um monte de coisas que você faz. Eu detesto a sua toalha molhada no chão da cozinha, eu detesto o cheiro da sua boca de manhã. É, todo mundo tem, mas eu não gosto mesmo. Eu não gosto quando você conta suas piadas e nem da sua irresponsabilidade pseudo-rebelde. Porque é bonitinho usar calça rasgada aos quinze, já aos vinte e tantos soa ridículo. Mas eu amo as suas calças rasgadas e os seus tênis de cinco anos e suas blusas do Che. Eu amo as suas blusas do Che. Adoro o Martini que você faz pra mim e gosto dos livros que você me deu. Gosto deles mais do que falo que gosto. Eu acordei você pra te contar que eu te amo muito e por mais que eu só tenha falado isso depois de transas ou de conquistas, eu te amo pra caramba, cara. Eu acho que eu não poderia mais dormir se não fosse nesse apartamento desorganizado e nessa cama pequena demais pras tuas pernas. Eu acho que eu sempre vou precisar de você e morro de medo de você morrer. Porque eu sei que as pessoas morrem, mas se você morrer, Felipe, eu tô fudida. Eu acho que eu morro junto. Eu sei que isso é clichê, eu sei que é ridículo eu te acordar pra falar isso, mas eu precisava ter certeza de que eu te disse tudo o que eu sinto. Eu precisava saber que você sabe que eu sei que você sabe que eu te amo pra caralho. Porra, Felipe, que merda. Acorda, cara.
- Fel.
Eu estou desarmada.
E ela foi embora
Era minha hora de almoço. Acendi um cigarro pra enganar a fome e botei uma música na cabeça pra não pensar que tudo estava sendo um desgosto. Eu tinha medo de fazer a matemática da minha vida. Eu queria enxergar pontos positivos e não conseguia. Entre um trago e outro eu ia me analisando. Era como me ver em um espelho gigante. Meu Deus, eu era tão pequena.
Cheguei em casa com o coração apertado. Aqueles mesmos móveis no lugar, aquela rotina que me consumia devagar. Pra piorar, ela tinha me deixado. Foram dois dias de tortura e eu estava tentando lidar com isso da melhor forma. Nunca ninguém me deixou. Então ela chegou na minha vida, fez o que quis comigo e foi embora me dizendo que as coisas não eram mais as mesmas. Me diz, o amor acaba? Esse é um pensamento que eu costumo mergulhar dentro.
Eu lembro de um dia que nós estávamos andando na rua e ela me falou “As pessoas não entendem nada sobre relacionamentos entre garotas”. É verdade. Você tem que estar dentro pra sentir. É um outro lado. É bom, mas pode ser ruim. Eu devo ter sido ruim pra ela.
De noite fui escovar os dentes e ao me olhar fixamente no espelho por cinco segundos, meus olhos ficaram cheios de lágrimas. Mas que diabo. Eu estava sofrendo de verdade. O meu coração nobre e gentil agora estava amargurado. Eu me sentia vazia e era um vazio doloroso. Era indizível.
Antes de dormir, acendi outro cigarro. Eu estava cansando de pensar nela. Lembrava daqueles olhos e sentia arrepio. Quando é que a gente para de ser bom pra alguém?
Eu estava desarmada. Quando ela me conheceu eu era apenas um pedaço de carne no mundo. Ela me deu vida. Me deu e tirou, porque agora eu estava morrendo sem saber. E o que mais doía era pensar no que fazer com todos os planos. Como ela pôde? Uma semana antes, nós falávamos sobre nossos filhos e não parecia estúpido. Era um sonho porque ela era a minha garota. E eu a amei. A amei todos os dias, sem vacilar. Nunca me passou pela cabeça viver sem ela. Era absurdo. E agora eu estava lá, no meio do mundo, virando carne de novo.
Eu não vou mais saber sorrir.
- Débora Lopes.
Era minha hora de almoço. Acendi um cigarro pra enganar a fome e botei uma música na cabeça pra não pensar que tudo estava sendo um desgosto. Eu tinha medo de fazer a matemática da minha vida. Eu queria enxergar pontos positivos e não conseguia. Entre um trago e outro eu ia me analisando. Era como me ver em um espelho gigante. Meu Deus, eu era tão pequena.
Cheguei em casa com o coração apertado. Aqueles mesmos móveis no lugar, aquela rotina que me consumia devagar. Pra piorar, ela tinha me deixado. Foram dois dias de tortura e eu estava tentando lidar com isso da melhor forma. Nunca ninguém me deixou. Então ela chegou na minha vida, fez o que quis comigo e foi embora me dizendo que as coisas não eram mais as mesmas. Me diz, o amor acaba? Esse é um pensamento que eu costumo mergulhar dentro.
Eu lembro de um dia que nós estávamos andando na rua e ela me falou “As pessoas não entendem nada sobre relacionamentos entre garotas”. É verdade. Você tem que estar dentro pra sentir. É um outro lado. É bom, mas pode ser ruim. Eu devo ter sido ruim pra ela.
De noite fui escovar os dentes e ao me olhar fixamente no espelho por cinco segundos, meus olhos ficaram cheios de lágrimas. Mas que diabo. Eu estava sofrendo de verdade. O meu coração nobre e gentil agora estava amargurado. Eu me sentia vazia e era um vazio doloroso. Era indizível.
Antes de dormir, acendi outro cigarro. Eu estava cansando de pensar nela. Lembrava daqueles olhos e sentia arrepio. Quando é que a gente para de ser bom pra alguém?
Eu estava desarmada. Quando ela me conheceu eu era apenas um pedaço de carne no mundo. Ela me deu vida. Me deu e tirou, porque agora eu estava morrendo sem saber. E o que mais doía era pensar no que fazer com todos os planos. Como ela pôde? Uma semana antes, nós falávamos sobre nossos filhos e não parecia estúpido. Era um sonho porque ela era a minha garota. E eu a amei. A amei todos os dias, sem vacilar. Nunca me passou pela cabeça viver sem ela. Era absurdo. E agora eu estava lá, no meio do mundo, virando carne de novo.
Eu não vou mais saber sorrir.
- Débora Lopes.
Ela e Dylan.
Minha garota gostava dele
Um dia ela me ligou. Era quase meia-noite e eu já me preparava pra dormir. Minutos antes fiz um chá horroroso de camomila e deixei o bule no fogão mesmo. Não tomei um gole sequer. Por mim, estaria em um boteco imundo qualquer bebendo uma pinga forte que me rasgasse logo a garganta. Há quem ache isso repugnante vindo de uma mulher, mas não ela. Ela nunca pensaria isso. Ela sempre sabia o que eu pensava e queria. E foi exatamente o que aconteceu.
- Vou passar aí e você vai sair pra beber comigo.
Aquela voz rouca, ácida e inconfundível estava pronunciando exatamente o que eu queria ouvir.
- Você é quem sabe, falei.
Sempre tento parecer indiferente. Idiotamente indiferente, claro.
Quando ela chegou já era mais de uma hora da manhã. Eu fiquei esperando na calçada. Não parava de bocejar. Meu rosto estava vermelho por causa do vento gelado batendo nele. Quando lembrei que às 6 da manhã deveria estar em pé pra trabalhar, senti uma onda gelada de pavor subir meu corpo. Mas ignorei tudo e entrei no carro. Ela estava linda. Me dava vontade de gritar pro mundo que eu tinha alguém como ela do meu lado. Eu subia pelas paredes do meu cérebro.
- Você está bonita.
- Obrigada, respondi.
Eu ficava imaginando como ela conseguia me tirar de casa uma hora daquela, com um frio daquele e ser tão selvagem a ponto de dar o olhar mais foda do mundo. Eu queria beijar aquela boca desesperadamente. Eu queria fazer sexo com ela. Eu queria tudo com ela. Eu queria o mundo com ela.
- Por que você não dirige?
Como assim ela interrompia os meus pensamentos mais insanos sobre nós duas?
-Porque não tenho carta, falei.
-Tire.
-Não. Não quero.
Me assustava pensar que, talvez, ela me achasse a pessoa mais solitária e fracassada do mundo. Doía um pouco. Mas só um pouco.
- Eu gosto de ouvir Bob Dylan quando estou dirigindo.
- Dylan é bom.
Chegamos ao bar e me pareceu um lugar bonito. As luzes da entrada me ofuscaram os olhos. Aquilo parecia um motel. Entramos e ela disse "Senta". Sentei, muda. Mais muda do que nunca, eu diria. Ela ordenou duas cervejas ao garçom e sorriu quando ele disse "Em um instante." Me pareceu um tanto brega. Ela me olhou. Sorriu. Sorri de volta.
- Eu gosto desse lugar porque sempre fico bêbada rapidamente. Só tomo coisa forte.
- Mas você pediu cerveja, arrematei.
- Porque estou com você.
- E o que tem?, indaguei. Na minha cabeça, talvez ela não quisesse dirigir alterada.
- Não quero ficar bêbada porque quero ter você e estar sóbria pra lembrar depois.
Abaixei os olhos. Sorri. Era incrível a minha capacidade de ser estúpida. Ela me queria. Estava claro. Ela também queria sexo. Ela demonstrava. Eu não. Eu não era capaz de demonstrar reciprocidade. Minha boca só sabia ficar calada.
Depois de algumas cervejas, deixamos o bar. Eu, nem ligeiramente bêbada estava. No caminho de volta pra casa não falamos uma palavra. O rádio estava desligado. Nem Dylan, nem nossas vozes. Mantivêmos silêncio. Eu ficava olhando as luzes amarelas nas ruas.
- Está entregue, ela falou enquanto parava o carro em frente a minha casa. Eu podia ver decepção até nos olhos dela. Mas era como se algo dentro de mim me impedisse de dizer algo que confortasse aquela situação. Disse tchau, saí do carro. Entrei em casa com aquela cara apalermada. Eu me sentia arrependida. Mas ela já tinha ido embora. Embora. E mais uma vez eu perdi para a estupidez. Subi as escadas com o perfume dela no meu nariz. Entrei em casa e lá estava a rotina sentada no meu sofá. Eu sentia cólera no meu sangue e não podia fazer nada. Não conseguia. Apoiei as costas na parede e fui caindo lentamente, até atingir o chão. Acendi um cigarro amassado que estava no bolso e fechei os olhos. Sentia que nunca mais veria aquela menina. A menina que eu tanto queria e desejava. Chorei por alguns minutos. E me parecia muito mais imbecil chorar por aquilo. Lentamente, com os olhos fechados, peguei no sono. Me sentia em outra dimensão, flutuando entre planetas distantes. E tudo ficou branco e branco e mais branco. E então o telefone tocou. Era ela. Ela.
- Débora Lopes
Um dia ela me ligou. Era quase meia-noite e eu já me preparava pra dormir. Minutos antes fiz um chá horroroso de camomila e deixei o bule no fogão mesmo. Não tomei um gole sequer. Por mim, estaria em um boteco imundo qualquer bebendo uma pinga forte que me rasgasse logo a garganta. Há quem ache isso repugnante vindo de uma mulher, mas não ela. Ela nunca pensaria isso. Ela sempre sabia o que eu pensava e queria. E foi exatamente o que aconteceu.
- Vou passar aí e você vai sair pra beber comigo.
Aquela voz rouca, ácida e inconfundível estava pronunciando exatamente o que eu queria ouvir.
- Você é quem sabe, falei.
Sempre tento parecer indiferente. Idiotamente indiferente, claro.
Quando ela chegou já era mais de uma hora da manhã. Eu fiquei esperando na calçada. Não parava de bocejar. Meu rosto estava vermelho por causa do vento gelado batendo nele. Quando lembrei que às 6 da manhã deveria estar em pé pra trabalhar, senti uma onda gelada de pavor subir meu corpo. Mas ignorei tudo e entrei no carro. Ela estava linda. Me dava vontade de gritar pro mundo que eu tinha alguém como ela do meu lado. Eu subia pelas paredes do meu cérebro.
- Você está bonita.
- Obrigada, respondi.
Eu ficava imaginando como ela conseguia me tirar de casa uma hora daquela, com um frio daquele e ser tão selvagem a ponto de dar o olhar mais foda do mundo. Eu queria beijar aquela boca desesperadamente. Eu queria fazer sexo com ela. Eu queria tudo com ela. Eu queria o mundo com ela.
- Por que você não dirige?
Como assim ela interrompia os meus pensamentos mais insanos sobre nós duas?
-Porque não tenho carta, falei.
-Tire.
-Não. Não quero.
Me assustava pensar que, talvez, ela me achasse a pessoa mais solitária e fracassada do mundo. Doía um pouco. Mas só um pouco.
- Eu gosto de ouvir Bob Dylan quando estou dirigindo.
- Dylan é bom.
Chegamos ao bar e me pareceu um lugar bonito. As luzes da entrada me ofuscaram os olhos. Aquilo parecia um motel. Entramos e ela disse "Senta". Sentei, muda. Mais muda do que nunca, eu diria. Ela ordenou duas cervejas ao garçom e sorriu quando ele disse "Em um instante." Me pareceu um tanto brega. Ela me olhou. Sorriu. Sorri de volta.
- Eu gosto desse lugar porque sempre fico bêbada rapidamente. Só tomo coisa forte.
- Mas você pediu cerveja, arrematei.
- Porque estou com você.
- E o que tem?, indaguei. Na minha cabeça, talvez ela não quisesse dirigir alterada.
- Não quero ficar bêbada porque quero ter você e estar sóbria pra lembrar depois.
Abaixei os olhos. Sorri. Era incrível a minha capacidade de ser estúpida. Ela me queria. Estava claro. Ela também queria sexo. Ela demonstrava. Eu não. Eu não era capaz de demonstrar reciprocidade. Minha boca só sabia ficar calada.
Depois de algumas cervejas, deixamos o bar. Eu, nem ligeiramente bêbada estava. No caminho de volta pra casa não falamos uma palavra. O rádio estava desligado. Nem Dylan, nem nossas vozes. Mantivêmos silêncio. Eu ficava olhando as luzes amarelas nas ruas.
- Está entregue, ela falou enquanto parava o carro em frente a minha casa. Eu podia ver decepção até nos olhos dela. Mas era como se algo dentro de mim me impedisse de dizer algo que confortasse aquela situação. Disse tchau, saí do carro. Entrei em casa com aquela cara apalermada. Eu me sentia arrependida. Mas ela já tinha ido embora. Embora. E mais uma vez eu perdi para a estupidez. Subi as escadas com o perfume dela no meu nariz. Entrei em casa e lá estava a rotina sentada no meu sofá. Eu sentia cólera no meu sangue e não podia fazer nada. Não conseguia. Apoiei as costas na parede e fui caindo lentamente, até atingir o chão. Acendi um cigarro amassado que estava no bolso e fechei os olhos. Sentia que nunca mais veria aquela menina. A menina que eu tanto queria e desejava. Chorei por alguns minutos. E me parecia muito mais imbecil chorar por aquilo. Lentamente, com os olhos fechados, peguei no sono. Me sentia em outra dimensão, flutuando entre planetas distantes. E tudo ficou branco e branco e mais branco. E então o telefone tocou. Era ela. Ela.
- Débora Lopes
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Videotape.
- Esta talvez não seja a melhor forma de despedida, eu sei! Mas, a verdade é que eu não tive coragem de te procurar depois de tudo que passamos juntos. Não é engraçado? As pessoas com as quais temos uma longa história deveriam ser as mais próximas. E são! Mas, ao mesmo tempo, às vezes, são as que temos maior dificuldade de falar certas coisas. Eu não quero que você pense que isto que eu fiz tem a ver diretamente com você. Na verdade eu sempre acreditei que, depois de nós vamos embora, as pessoas deveriam ficar somente com as melhores lembranças. Isto é um pouco o que eu tento fazer aqui. Gostaria que você ficasse com tudo o que houve de bom de mim! Em mim! Gostaria que você soubesse que sempre que eu me lembrava de você, era o sorriso aberto e franco que havia ficado guardado na minha memória. Era a pele suada sobre a minha pele suada nos momentos de intimidade. Era a maneira como você acordava pela manhã, com o nariz por trás de minha orelha. Era seu cheiro, tão marcante e ao mesmo tempo suave. Vê? No meu vídeo de lembranças há tantas imagens suas... Eu fui feito tanto por você... Eu... Desculpe pelas lágrimas... mas não pense que são de dor ou de arrependimento... são apenas lágrimas... não dê tanta atenção à elas. Elas estão aqui porque, de alguma maneira, meu corpo ainda reage... porque as memórias são tão fortes e prazerosas... ou talvez não... talvez você deva dar atenção às lagrimas... mas não como a maioria reagiria à elas. Eu sei que você não seria tão óbvio. Eu sei que você sabe que as lágrimas nem sempre são memória ruim. Elas são apenas testemunha de que, tudo o que eu falo, não é apenas um discurso vazio... pode até ser confuso e desfocado, mas tem a ver com a gente... e isso é o que importa. Este vídeo não é um tratado para a humanidade. Este vídeo é como uma carta, pessoal e íntima. É uma conversa entre nós, como tantas que tivemos. Eu sei que, por exemplo, neste momento você deve estar sentado na poltrona vermelha que nós tanto ríamos e gostávamos. Que as luzes não devem estar todas acesas. Que você deve estar sentado com os cotovelos apoiados próximo aos joelhos. Que antes de pressionar o play você hesitou umas duas ou três vezes. Que talvez tenham passado semanas, talvez meses desde que você recebeu o envelope. Eu sei... ninguém disse que as coisas seriam fáceis. Mas, tudo isso não importa mais. A vida segue. A sua vida. As pessoas continuarão a acordar pela manhã. As pessoas continuarão a se esbarrar umas nas outras. As pessoas continuarão a olhar para trás para pedir desculpas e encontrarão os olhos verdes, que elas continuarão jurando serem os mais verdes do mundo. As pessoas continuarão. O mundo continuará. Você continua. As imagens continuam. Mesmo eu, continuo a existir. Eu só habito um outro lugar nesta linha contínua de tempo. Eu sou, agora, um passado mais-que-perfeito... como gostávamos de dizer.
- Quando recebi o envelope, eu hesitei. Pensei em colocá-lo em uma gaveta e fazer com que fosse mais uma daquelas coisas que eu gosto tanto de adiar... mas, não é uma ironia? Se eu tivesse feito isso, você estaria completamente certo sobre tudo. Mas não... desta vez não! Desta vez eu "nos" surpreendi. Quando eu recebi o envelope, após uma pequena hesitação, eu corri para a sala... o sofá vermelho... a hesitação para apertar o play... os cotovelos... em tudo isso você estava certo... mas, talvez por não ter esperado o tanto que você imaginou, eu não estava preparado para ouvir e ver tudo isso! Eu sei que a vida continua... eu nunca fui um bobo que imaginava estar completamente unido á uma única pessoa. Mas, as imagens que você me trouxe assim, tão de repente, ainda eram tão fortes. Ainda eram tão dolorosas... Como é possível? Tudo o que eu mais gostava em nós, neste momento, era tudo o que mais me machucava! Mesmo o perfume que eu usei durante anos, parecia agredir a minha pele. O mundo me repelia. Ou será que era eu que repelia o mundo? Será que era eu que estava me recusando a conjugar o verbo? Ou será que o verbo não se encaixava em nós? Eu sei, eu sei... tudo ainda é tão recente. Eu sei que não há outra solução a não ser esperar... as feridas se curam, as lágrimas secam... tudo vira apenas mais um capítulo de livro. Um conto. Um fragmento. Um clip de uma música triste e melancólica, como aquelas que gostávamos de ouvir. Um piano como base e a voz do Thom Yorke falando de céu, inferno e de dias perfeitos passado juntos.
- Max Reinert
- Quando recebi o envelope, eu hesitei. Pensei em colocá-lo em uma gaveta e fazer com que fosse mais uma daquelas coisas que eu gosto tanto de adiar... mas, não é uma ironia? Se eu tivesse feito isso, você estaria completamente certo sobre tudo. Mas não... desta vez não! Desta vez eu "nos" surpreendi. Quando eu recebi o envelope, após uma pequena hesitação, eu corri para a sala... o sofá vermelho... a hesitação para apertar o play... os cotovelos... em tudo isso você estava certo... mas, talvez por não ter esperado o tanto que você imaginou, eu não estava preparado para ouvir e ver tudo isso! Eu sei que a vida continua... eu nunca fui um bobo que imaginava estar completamente unido á uma única pessoa. Mas, as imagens que você me trouxe assim, tão de repente, ainda eram tão fortes. Ainda eram tão dolorosas... Como é possível? Tudo o que eu mais gostava em nós, neste momento, era tudo o que mais me machucava! Mesmo o perfume que eu usei durante anos, parecia agredir a minha pele. O mundo me repelia. Ou será que era eu que repelia o mundo? Será que era eu que estava me recusando a conjugar o verbo? Ou será que o verbo não se encaixava em nós? Eu sei, eu sei... tudo ainda é tão recente. Eu sei que não há outra solução a não ser esperar... as feridas se curam, as lágrimas secam... tudo vira apenas mais um capítulo de livro. Um conto. Um fragmento. Um clip de uma música triste e melancólica, como aquelas que gostávamos de ouvir. Um piano como base e a voz do Thom Yorke falando de céu, inferno e de dias perfeitos passado juntos.
- Max Reinert
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